A comunidade BDSM é ativa e pulsante. São muitos grupos com pessoas de todas as regiões do Brasil. E o leque de possibilidades , de modelos de vivência é grande. Todo dia surge um grupo novo, mil e uma leituras diferentes.

E todos os dias também surgem novas teorias e de repente você se esbarra com alguém citando uma nova “norma” de comportamento para os praticantes.

Esbarramos numa dessas dia desses. Alguém escreveu sobre um tal de tempo de desconstrução.

E colocam isso no mínimo como tendência da estação até virar norma que a gente vai levar anos pra tirar da cabeça do povo.

Na verdade, pra mim, sempre acaba assim: ou laceia e a gente nunca mais se vê naturalmente ou há uma ruptura de um dos lados.

Se os encontros perderam a magia. Se não é mais tão legal estar junto, se não tem mais gargalhadas, emoções, acaba. Se acaba, acaba. E ai pronto, cada um cuidar de suas feridas.

Seria bacana se falassem mais sobre o tempo de construção. Do viver um dia depois do outro. Mas não pode ser leve, né? Tem que ser pesado, dramático.

Naaa… Vão viver!

Um dia depois do outro!

Gostei da resposta do Vallmonth sobre a tal desconstrução.

Um leitura interessante:

“As relações Ds (como todas as relações) deveriam encerrar-se dentro da maior tranquilidade possível, de forma que não ficassem mágoas, traumas, decepções, sentimentos de perda e abandono, desgastes, etc.

Mas isso, salvo raras exceções, sabemos todos, é ficção que nem nos romances mais motivadores consegue ser levada a cabo. Um desses fatores vai aparecer seja durante ou após, sendo ou não até motivador do rompimento.

No caso do BDSM a figura do tal “contrato”, mais ainda, seria a mostra de que aquela relação é aquilo: uma troca de interesses comuns objetivando o prazer mútuo. Frise-se: MÚTUO. Cada um extraindo da sua posição e da dinâmica com o outro os motivadores deste sentimento e despedindo-se ao final da validade do mesmo, sem nenhum litígio.

As duas partes são RESPONSÁVEIS pela manutenção saudável da relação, e isso envolve, por suposto, a sobriedade necessária para desligar-se seja pelo fim do prazo, seja por algum impedimento “benigno ou maligno”.

Deveria ser assim.

Deveria…

Então me apareceu este conceito de “desconstrução”. Até já tinha matutado sobre isso anteriormente mas nunca com muita certeza do quê ou como. Porque sabemos que, quanto mais fincadas as raízes, mais difíceis extrair, e difícil sentir a dor delas sendo cortadas delicada ou grosseiramente. Haverá a resistência natural, a aflição, a desolação.

Mas como prometi uma cine-resposta, vamos falar sobre essa possibilidade de desconstrução em uma relação Ds ilustrando com o auxílio da sétima arte:

Vamos começar então com “UP IN THE AIR (Amor sem escalas)”. Um filme essencial, principalmente nos dias de hoje, e nem um pouco datado.

O filme tem como pano de fundo a rotina do executivo de uma empresa contratada para demitir funcionários de outras corporações. O “Conselheiro de Transições de Carreira” chega no contratante, vai para uma salinha e chama um por um dos desafortunados para o momento fatal.

Baseado nele, imagino a cena do início deste processo na Ds: O Top chega e diz: “bottom, não preciso mais dos seus serviços, mas não vou te deixar na mão, para que exista uma desconstrução de tudo isso que você se tornou para mim, estou aqui te mostrando essa pastinha com passos para você enfrentar melhor este momento. Tenho certeza de que, daqui pra frente, você crescerá muito mais e chegará a objetivos nunca dantes alcançados. Por favor vá na sua mesa, recolha suas coisas e adeus”.

Você pode até colocar um período de “aviso prévio”. Mas quem aqui não já passou pela péssima experiência de ficar trinta dias numa empresa sabendo que não tem futuro mais ali? Preso a que? Com responsabilidades de que? Não sei bem o que é pior: o corte brusco ou a antecipação do fim.

Como apagar ou controlar os sentimentos? Pq esse papo de “entrega e servidão devota” não se sustenta por muito tempo sem um ingrediente a mais: a paixão, o querer ou, quem sabe, o amar mas, principalmente, sem o Tesão.

Então, como conviver com alguém que não tem mais interesse em você como objeto daquilo que os uniu enquanto todos os desejos estão ainda dentro de você? A desconstrução vai parecer muito mais um tortura sem fim, ou um esperança de recomeço do que mesmo o caminho suave do fim.

Não é uma hipnose em que uma hora vc come a cebola e no momento seguinte desperta sem saber o que aconteceu. E, por falar em lembrança e lembrar, vamos ao segundo filme:

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS.

Quem não assistiu ou é ruim da cabeça ou doente dos zóio. Então o mote bem resumido é este: sem lembranças, apagar da mente alguém ou alguma coisa do qual a separação te traz dor. Então, focando apenas neste ponto que é só parte do que o filme traz, vamos fazer essa “desconstrução” para não sofrer? E como se aparta a memória das coisas boas (e das ruins) isso não existe, não é? Pelo menos por enquanto. Como uma desconstrução apaga vínculos fortes? E como o objeto de apego vai ser o condutor deste mesmo processo? É certo que vamos lutar para não apagar a força das boas lembranças e a tempestade do rompimento vai deixar tudo muito mais turbulento.

Por fim, mas não por último vamos a ANNIE HALL e/ou 500 DIAS COM ELA: Falou-se no texto motivador do debate sobre uma ajuda de terceiros, ajuda psicológica, etc.

Embarcamos, então, em Annie Hall, uma das obras-primas de Woody Allen. Ali, o personagem do próprio diretor está, entre outras coisas, buscando entender no divã do psicólogo onde errou, porque a relação não continuou, pq Annie não aceitou o pedido de casamento, até aceitar que a vida simplesmente precisa seguir e a experiência vivenciada é mais um arquivo a ser acumulado no aprendizado (ou não) das relações.

De forma parecida “500 DIAS” vai recontando toda a caminhada até o Quincentésimo dia e o rompimento e, eentão, um “novo UM”.

O que as duas narrativas tem em comum: de um lado pessoas (nos dois casos, as mulheres) que sabem o que precisam extrair de suas relações (o prazer, a alegria, o tesão) e do outro (os homens) os que mergulham numa busca de satisfação do outro (à primeira vista), da prisão sentimental (numa segunda vista) e numa dependência e insegurança (numa visão ainda mais longe, ou não).

E o que esses dois filmes trazem para o tema: É notório que, por mais que se negue, as relações Ds no BDSM são, em sua maioria, transitórias. É mister, então, envolver-se sabendo onde pisar, nunca esquecer que é em busca de PRAZER que você está alí. Em busca de experimentar o que o outro tem para dar DAQUILO QUE VOCÊ QUER (ou pode passar a querer) experimentar. Para isso você assina um contrato (mesmo que verbal) que, como qualquer outro, pode ser rompido. Então é preciso, ter a “safe pessoal” do amor próprio, do prazer próprio (ou egoísta como queiram) que move os passos no rumo da entrega.

Tudo o que vc faz e até mesmo a obediência deve ser por você e não por ninguém. Estou ali pq GOSTO daquilo. Tanto é que, no momento que não gostar mais daquilo (com aquela pessoa) posso simplesmente dizer: nosso contrato chegou ao fim.

Isso vale para os dois lados da moeda (ou do chicote como gostam de dizer). Sim, pq coleiras também são entregues!

Findamos (ufaaa), então, salientando que, melhor que criar novos processos, novas responsabilidades, novas burocracias, caminhar pela via do equilíbrio e sobriedade, sabendo dosar doação e prazer é a opção mais sóbria velando ressaltar a busca do diálogo no ciclo final da relação, respeitando as escolhas de cada um.

É difícil, é. Mas nem tudo é bônus, temos o ônus!”