Sobre aborto, sobre a vida
dezembro/2016
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Fotografia de  Aleksandr Savichev

Eu não me sinto no direito de calar sobre esse tema.

Eu mudei muito e aprendi a não me calar sobre nada. Minha opinião é importante sim. A de cada pessoa é.

Quando me perguntavam sobre casamento gay eu dizia que a mim pouco importava o tema. Quero lá saber com quem o meu vizinho se casa?

Eu achava que era uma postura correta e respeitosa em relação aos gays. É respeitosa mas a verdade é que precisa ser mais do que respeitosa, precisa trabalhar junto mesmo, dar uma força. Porque por mais absurdo que te pareça, tem sim um monte de gente que acha que deve opinar sobre isso. E opinam negativamente.

Agora existe a questão do aborto.

Gente, não conheço ninguém que seja a favor do aborto. Aborto é uma merda. Não é só a invasão do corpo. É muito mais do que isso. É um pensar eterno sobre se agimos certo ou errado naquele momento. É doloroso. É perigoso.

Eu escolhi ter meu filho. Digo que escolhi porque naquela época tinha apoio de pessoas para abortar com segurança e escolhi ter. Se decidisse abortar, como qualquer mulher da classe média, eu faria num bom médico, com toda proteção e segurança. Confesso que não foi uma decisão fácil. Eu estive muito perto de abortar.

Hoje quando penso nisso me apavoro com tudo que teria deixado de viver ao lado do meu filho.

Se tivesse tirado como saberia que seria uma grande aventura?

Difícil mas foi uma jornada que percorremos juntos. E das quais guardamos boas lembranças. Valeu a pena!

Então primeiro de tudo, sou contra. Não posso ser a favor de mulher alguma viver o drama de uma escolha que , sempre,  invariavelmente é solitária.

Então talvez fosse bom não ter essa parte da escolha. Mas legal ou não, sempre haverá o dilema.  Porque nós há mil anos entendemos que ter ou não ter filho é uma decisão pra vida. E, desculpem os homens, mas desde sempre é a gente que acaba cuidando. Nós sempre vamos refletir sobre isso e vamos abortar se entendermos que é a única solução.

Cada mulher sabe de si. O que pode. O que sonhou. Algumas abortam porque amam demais a ideia de ser mães. Mas querem ser mães de verdade. Assumirem a cria mesmo e dar o melhor. E se veem perdidas. Querem ser mães pra valer. Um emprego bacana que lhe de algumas horas a mais com os filhos. Uma renda boa para uma boa escola. E se dão conta de que não vai rolar nesse momento. E que talvez não role nunca.

Outras realmente não sonharam ser mães. Não querem simplesmente.

Outras até queriam mas o parceiro excedeu todos os limites do egoísmo e disse apenas pra ela se virar. Acontece muito.

E todo mundo já teve medo de uma gravidez não planejada. Eu tive vários que não usava preservativo, sou do tempo antes da AIDS. Então só vivia com esse medo: de ter engravidado! A menstruação era uma benção.

Então, mesmo que eu seja contra o aborto, eu me preocupo com as pessoas que engravidaram por milhões de motivos e que escolheriam não ter. Penso no desespero, na angustia. No medo.

Eu acho que deveriam existir casas de apoio que as ajudasse a ver o que é melhor. Deixando um tempo tranquilo para pensar. Pedir apoio, com sua autorização, de familiares e do companheiro. Ser um espaço delas.

E ajuda-las no sentido da perspectiva de ter sim, mas caso decidam não ter, apesar desse tempo e desse apoio, da mesma forma seriam respeitadas como cidadãs. Com seus direitos garantidos.

O SUS alega não ter dinheiro. Coloque no lápis quanto se gasta com úteros doentes por causa de aborto clandestino. E quanto valem as pessoas que morrem por falta de apoio?

Eu escolhi ter meu filho. Eu escolheria sempre. Mas eu vacilei. Eu fui e voltei várias vezes. Mas estava muito apoiada por familiares independente de qual decisão tomasse.

Então foi uma escolha.

Que outras mulheres não tem. Foi bom ter essa escolha. Porque eu pensei em que continuaria estudando, pensei em pessoas que pudessem me apoiar. O pai do meu filho foi bem bacana no sentido de ficar junto. Logo no começo mas vieram os tempos ruins pra nós. Muito ruins. Mesmo assim chegamos até aqui juntos eu e meu filho.  Uma grande maratona, creiam.

Eu consegui fazer quase tudo que queria. Com um monte de percalços no caminho. Deixando filho com febre em casa na mão de estranhos pra poder ir trabalhar. Passei por essas coisas. Mas trabalhei no que gostava, estudei…

Eu acho até que meu filho me salvou. Não fosse por ele eu seria bem porraloka.

Então o meu pedido não é a favor do aborto. É contra criminalizar a mulher que faz aborto.

Cada uma sabe de si. Das suas crenças. Das fragilidades. Das suas forças.

Eu não sabia ainda muito sobre mim. A força surgiu de repente. Sei que um dia eu e o pai dele estávamos sentados na guia na porta de casa e falávamos sobre todas as dificuldades. Decidimos que era possível. E cantamos bêbados: ” É o mundo vai ver uma flor renascer, o amor brotar do impossível chão”

E ali eu decidi. Que seria incrível essa aventura. Que eu ia parir e ser mãe do melhor jeito possível. Com toda a minha força.

E eu fui. Acho. Ele diz que sim. Ele é um grande cara.

Então eu lutaria pela vida até o último instante mas respeito quem entende de outra forma e não acho que o eu penso deva ser regra para a vida de ninguém. Abandonar um ser humano a própria sorte por conta de um erro, de um momento? Não é só abandonar, é CRIMINALIZAR.

Os argumentos que leio me causam arrepios.

–  “assim todo mundo vai querer abortar”. Meu, que merda que ces tão falando!!  De novo: abortar é uma merda.

– “por que não usou a pílula do dia seguinte?” porque sei lá. Porque o cara mentiu que não tinha gozado dentro? Que tirou? Porque a porra da camisinha furou? (Comigo aconteceu. A Olla na época até nos mandou uma cartinha pedindo desculpas. Por sorte não foi daquela vez que engravidei.)

–  “por que não pensou antes?” Porque foi um impulso, um tesão louco (caralho! se nunca aconteceu com você então vai ver que tem recalque ai , desculpe a franqueza.) Acontece com todo mundo.

– Porque não usou preservativo?  “por simples falta de informação” Eu! Eu tomei 5 pílulas de uma vez e transei 5 dias seguidos com a certeza de que estava imunizada. (Essa já não rola, tô falando ai de 34 anos atrás, que não tinha mesmo informação)  Mas outras informações, formação, educação, etc etc etc

Foda-se como foi que chegou ali, verdade é que precisa de apoio agora. Se tiver acolhimento, vai entender o que aconteceu e o próximo filho, se houver, com certeza será planejado.

Não tente impor a sua verdade. Cada mulher sabe de si, e sabe até onde pode ir. Confie. Apenas confie e esteja perto.

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