Daí lendo aqui um texto enorme sobre o perdão e as maravilhas que ele faz pelas relações. Ok para todas as relações: para o amor baunilha, para relacionamentos com amigos, familiares, chefes, vizinhos… Enfim, como cristã eu sei que o perdão é realmente muito importante. Aprendi cedo inclusive a ME perdoar. Coisa que a religião “esquece” de ensinar, né? Eu sei que erro demais, como todo mundo…

Porém nas relações BDSM a história do perdão é um pouco mais complicada. Primeiro que perdoar é prerrogativa da Rainha. Só ela pode perdoar porque só o escravo pode pedir perdão. É isso. É foda mas é isso.

Perdoar até nem é o problema. Pra mim é muito fácil, aliás. Voltar a conviver é que são elas…

Claro que não é sempre assim. Depende muito do erro. Se a relação é leve e saudável isso terá um peso diferente mas quando a relação já vem de um desgaste, de uma sucessão de “perdões” dos dois lados, aí as coisas tendem a piorar cada vez mais. E o perdão que era uma promessa de renovação, acaba se tornando um fardo que vem sempre com  aquela sensação de “já vi esse filme” …  O problema nem é o perdão mas sim voltar a conviver. Acredite: nunca mais as coisas voltarão ao seus lugares.

Ou talvez o tempo, né? Se os envolvidos realmente estiverem refletindo… Talvez! Talvez o tempo…

Eu tendo a fazer muitas concessões nas minha relações. Em todas elas. Talvez por ser muito ativa no blog, quase transparente, as pessoas podem ter a falsa impressão de que estou aberta para o mundo. Não.  Sou totalmente travada. Aliás, bom lembrar, sou extremamente tímida também, e só fico à vontade quando conheço bem as pessoas.

Falo muito bem em público, dou palestras e trabalhei anos em treinamento. Então, em um palco (como no fundo é este blog) eu me sinto em casa. De boa. Mas é comum em locais que vou dar palestras eu inventar desculpas para  fugir assim que termina ou chegar em cima da hora. Eu tenho muita dificuldade de me relacionar intimamente. Crio logo uma cerca elétrica para me proteger.

Talvez por isso, cada pessoa que consegue romper minhas resistências e entrar no meu mundo, torna-se muito importante para mim. Porque daí eu me abro pra valer mesmo. Vou com tudo.

Então claro que isso não é diferente nas relações BDSM. A mesma trava, a mesma vontade de não perder mais aquela pessoa… Porém, é um pouco frágil isso nessas relações. Eu aprendi, não sem sofrimento,  que é preciso cuidar, ter termômetro interno das concessões que eu posso fazer e quais não posso de jeito nenhum.

isso por certo é muito pessoal. É um aprendizado interior.

Por exemplo, eu gosto muito de obediência. Gosto. Demais. É o que mais mexe com a minha libido, sem sombra alguma de dúvida. Mas certa vez tive um escravo que travava exatamente nessa hora. E era uma relação boa quando não estava sendo desafiado nessa questão, ou seja, quando os comandos vinham de encontro ao que ele queria fazer, ou eram leves o suficiente para ele atender sem reclamar.  Mas acontecia da gente brigar feio quando o desafio era maior. E dai idas e vindas, desencontros, reencontros.

Eu perdoava e voltava, porque queria muito preservar a relação que vinha sendo construída com certa dificuldade, porém, a cada volta, me pegava mais pisando em ovos, mesmo que ele prometesse mundo e fundos para voltarmos. E daí quando percebia que estava fazendo isso, me irritava e jogava a toalha. Avacalhava mesmo. Ao final, qualquer derrapada de qualquer dos lados era levada ao extremo. E bem, por fim, moral da história, quando vi estava eu pedindo perdão ao escravo. Porque de fato eu estava ficando muito chata. E hoje pensando bem, a relação tava uma bosta. Nós tínhamos estragado tudo há muito tempo…No fim nem há culpados mas eu nunca mais quero viver algo assim.

Não que eu não possa pedir perdão.  Eu posso. Eu sou Rainha, e, à rigor, não há nada que eu não possa. Mas o problema é fazer concessões quando os erros do escravo estão se repetindo sistematicamente e se tornam o centro da relação.

Outro caso é traição né?  Se você perdoar tem que ser profundo e pra sempre porque se não…

E acho que errei todas as vezes que perdoei nesse caso. Todo mundo sabe que sou o cão de ciumenta. Pois é! Mesmo  perdoando eu nunca mais consigo confiar no escravo.  E aí, pronto, ele traindo ou não traindo, ele se esforçando ou não… Para mim estará sempre sendo desleal, sempre traindo… Ao menor sinal.

Por isso perdoar sim, mas não voltar a conviver. Eu teria evitado um monte de problemas se tivesse respeitado minhas próprias regras.

E voltando ao meu centro,  eu digo que a Rainha precisa acima de tudo aprender a ser só, a caminhar só. Tem que saber voltar sempre ao seu eixo. Tem que seguir integra e não se deixar corromper nesse sentido. Se obediência e lealdade são valores imprescindíveis , eu não posso jamais negociá-los.  Posso seguir fazendo concessões, mas não em pontos  fundamentais como esses.   Não tem como, nem por toda a fé cristã, nem por gostar demais da pessoa. É uma ilusão.

Hoje já olhando de longe respiro aliviada.  Demorei um pouco mas estou aqui, inteira. E eu perdoo sim, no meu coração, mas não quero viver relações que me fragilizem.

sugestão de música: Cruzada – Beto Guedes

 

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