Eu queria muito fazer um texto bem legal sobre abusadores. Um texto que eu ficasse definitivamente livre de precisar a todo momento lembrar a diferença entre relacionamento BDSM e relacionamento abusivo.
Muitas vezes pego um embalo para escrever um conto ou um relato e vou mergulhando até lá pelas tantas me esbarrar com o medo de que não entendam que é tudo consensual. Que o manézinho tá amando ser humilhado, que montamos juntos o roteiro daquela viagem, que falamos sobre limites e blá blá blá.
Que tem começo meio e fim. Que quando uma imersão termina voltamos todos à vida..
Voltamos ao Shopping onde não há homens arrastados por correntes nem mulheres lambendo sapatos.
Eu volto pro balcão da minha loja toda feliz.
E pronto.
Lá estou eu fazendo o mesmo velho textão sobre o mesmo velho assunto.
Mas pensando bem, nunca é demais repetir tudo precisa ser consentido. E que o consentimento deve ser livre e consciente.
Agora aqui quem sou eu, né? Mil vezes me perguntei como permiti que as coisas chegassem àquele ponto se o relacionamento era abusivo desde sempre?
Eu sempre trabalhei muito.
Trabalhei muitos anos na área de Recursos Humanos.
Bem novinha já era gerente e cheguei a nível de diretoria passando por excelentes empresas.
Sempre ganhei mais do que a média dos meus amigos da mesma idade, até porque comecei a trabalhar muito cedo.
Sempre fui independente financeiramente.
Mas a meu favor, o fato de que quando o conheci eu estava muito machucada.
Havia passado por um outro episódio de abuso.
Outro tipo de abuso.
Então, ok, quanta sabedoria!
Peguei na mão de um abusador para me curar de um abuso.
Ali eu já estava paralisada pelo medo.
Com medo da chuva, do frio, as feridas ainda por cicatrizar, meu filho comigo bem quentinho e protegido…
Fui ficando.
Mas ele usava um perfume horroroso.
Quase irrespirável pra mim.
Um dia tive que falar e ele jogou fora.
Disse que tinha ganhado da ex.
Ah, danada!!
O certo era a gente fazer como os bichos, sentir primeiro o cheiro.
Primeiro sinal.
Dali já era pra eu ter saído fora!
E ainda na primeira vez que fizemos sexo ele gozou depois de 2 minutos.
E me culpou. Que eu tinha me mexido lá de um jeito que tirou a concentração dele.
Foi logo na primeira trepada.
Outro sinal.
Mas achei foi bom porque não fazia questão nenhuma que se demorasse em cima de mim.
Foi sempre assim mas também ganhou um monte de chifre.
Ah, foi!!
Tava tudo uma bosta mas eu tava viva!!
Enfim…
Fui ficando e tenho que me responsabilizar por isso.
Porque aceitei e acreditei na maior parte das vezes que estava consentindo.
Eu estava confortável.
Meu filho estava bem, fez muitos amigos.
Pude pagar boas escolas porque segui sempre trabalhando.
E quem é mãe sabe que se o filho tá bem, a gente tá bem também.
E foi até meu filho que já na adolescência topou a gente sair de casa.
E foi bacana porque ele abriria mão de muita coisa.
Saímos de um sobrado onde ele tinha seu própria quarto para dividirmos um quarto e sala nos fundos de uma casa.
Mas foi só a primeira separação de muitas idas e vindas.
Uma longa história que chega já.
Fica muito chata agora.
Porque foi uma longa vida chata ao lado dessa pessoa.
Até eu virar Dona!
Da minha vida.
Que o BDSM me ensinou que eu sempre tenho escolha.
Que eu tenho limites.
Tantas coisas sobre as quais eu não refletia.
Era naquela toada que eu vinha, um dia depois do outro, uma dor depois da outra.
E 20 anos.
Eu sempre aconselho um teste rápido para você saber quando seu consentimento não foi livre.
Quando sua Dona ou Dono quer experimentar uma nova prática é você se perguntar se pode recusar.
Mesmo que você tenha adorado a ideia se faça sempre essa pergunta.
O consentimento deve ser livre: não pode ser prova de amor, não pode estar num contexto de qualquer tipo de dependência, sob ameaça de ruptura ou qualquer tipo de ameaça.
Então pronto.
Era sobre isso.
Escrevi um testão de comentário, mas ficou perdido…
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Curiosa agora, né? : (
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