Na verdade, eu ia falar sobre relacionamentos abusivos…
Acabei sem querer contando a vida…
Bem, já falei que estive 20 anos em um relacionamento abusivo.
Eu pensava que violência doméstica era só física.
Não se falava nisso naquela época.
Acho que ainda nem havia uma atenção especial, acho que nem se falava dessa violência ainda.
Então a violência que eu sofri foi exploração do trabalho, controle financeiro, ameaças, etc.
Eu achava que eu só era burra mesmo de deixar ele controlar tudo.
Mas quando eu tentava olhar nossa contabilidade por exemplo ele fazia o diabo.
Eu ficava com preguiça de tudo que ia rolar.
Preguiça das brigas que podiam acontecer até dentro da empresa.
Na frente de clientes. Ele aos gritos e eu morta de vergonha!!
Era uma das formas de me calar.
Era eu no atendimento.
Eu passava muitas horas na empresa.
E lá ele vinha: “Que eu não confiava nele, que a loja não dava dinheiro e que ele se virava em mil pra pagar as contas.”
Quando parei de ser burra, fui vendo que nunca faltou dinheiro, até porque nunca faltou cliente. Acordei. E comecei a caminhar. Não foi fácil. Eu tinha mãe velhinha e filho adolescente e eu sairia sem nada porque seria (e foi ) uma longa briga na Justiça. Acabou em acordo. E eu aceitaria qualquer acordo para nunca mais precisa vê-lo.
Levou todo o estoque mas deixou o nome da empresa. Fique com o nome e com as dívidas. Eu tinha construído uma boa reputação para a empresa e eu amava o relacionamento que tinha com os clientes. Sou boa nisso!!
Eu gosto de comércio, gosto de atender.
Gosto do meu seguimento.
Gosto de ser humano.
E gosto de trabalhar.
Fiquei deprimida alguns meses.
Depois voltei.
Mais madura, mais atenta.
Negociei dívidas, pedi ajuda amigos, filho, marido.
Sempre reinvestindo tudo que entrava.
Ampliei o estoque.
Apostei no atendimento e na boa reputação da empresa.
E foi assim que agora minha empresa está saudável e está completando 25 anos.
Não vou ficar rica amanhã.
Talvez nem depois de amanhã , sabe-se lá se ainda virão outros percalços.
Mas eu gosto tanto do meu trabalho!
E eu tô tão feliz porque sempre me parece que uma nova jornada está começando.
Por fim, eu gosto de dar esse testemunho porque eu gostaria de ter lido algo assim quando eu não sabia o que fazer, quando eu nem sabia que era vítima.
E que, foda-se, às vezes a gente tem que recomeçar mesmo.