Levanta a sainha! Assim, assim!

EMPENHO
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– Olha, mãe. Não tá ficando linda? – perguntou minha irmã animadamente enquanto
retocava o batom.

– Sim, filha. Mas acho que você pode aplicar um pouco mais de sombra

– Hum… é você tá certa.

– Mas ponha agora um pouquinho mais de rosa escuro.

– Assim, mãe?

– Isso!… ai, filha você está mesmo fazendo um excelente trabalho em sua
irmãzinha.

Incapaz de fazer nada, e tentando não acreditar que aquilo estava acontecendo,
me mantinha quieto e cabisbaixo. Mas ao fazer isso, via o vestidinho rosa e
curto que mostrava quase toda as minhas pernas depiladas, além das luvinhas
rosas em minhas mãos, e das meinhas brancas e as sapatilhas rosas em meus pés.
Nem imaginava a tiara com uma grande fitinha rosa em meus cabelos.

– Pronto, mamãe. Terminei! – declarou minha irmã triunfante.

– Ai, filha. Você a deixou mais linda que eu imaginei!

Sorridente, minha irmã me virou para o espelho da penteadeira dela.

– Olha! Que gatinha temos aqui! Vai arrasar corações!

No espelho, no lugar de meu reflexo, vi uma garotinha vestida e maquiada feito
uma bonequinha. Uma bonequinha assustada. Seus olhos brilhavam, tentando
desesperadamente segurar as lágrimas. Se elas rolasse pelo seu rosto, iria
estragar a maquiagem “que sua irmã fez com tanto carinho e esmero”, o que
significaria uma nova punição.

E minha bunda iria arder mais do que agora.

Precisava fazer algo.

– M-m-mãe… – tremi.

– Na-ah-ah-ah! – interrompeu minha irmã – Como é que você tem dizer?

– Obrigada, meu bem! – exclamou minha mãe – É bom ver que você está preocupada
com a educação de sua irmãzinha.

Não tem de quê, mãe!

As duas me encararam, esperando pelo o que eu ia dizer. Aquilo ia ser a
humilhação suprema. Novamente fiz um esforço para segurar as lágrimas e engoli
minha respiração.

– Mamãezinha, eu… – falei com uma voz infantil, quase esganiçada.

– Ah! É assim que se fala, minha pequerrucha. Vamos continue.

– Mamãezinha eu… eu… eu juro que vou estudar mais agora, vou me empen…

– Não, não, não! – minha mãe me cortou de novo – Esqueça aquela sua faculdade
boba. Você já desperdiçou tempo demais lá. Teus coleguinhas já estão até
terminando, criança.

“Pois é isso o que você vai ser agora. Se não consegue arcar com suas
responsabilidades, se não consegue crescer de uma vez por todas, então vai ficar
aqui em casa ajudando a Dalva a cuidar de tudinho. Eu e seu pai estamos ocupados
ganhando a vida, e sua irmã cuidando da faculdade dela”.

– E do estágio – completou minha irmã.

– E do estágio dela. – continuou minha mãe – É por isso que você vai ser uma boa
menina.

“Meninas são mais responsáveis, mais prendadas e espertas. Têm total consciência
de seus deveres. Veja o exemplo de sua irmã!”

Ela fez um enorme sorriso orgulhoso.

– Além do mais – continuou minha mãe – se você for uma boa menina mesmo, e vai
ser!, pode arranjar um bom garoto que cuide bem de você.”

– Mas mamãezinha! Eu…

– SEM MAS!!! – vociferou minha mãe – Vai ser assim e fim de papo… estamos
entedidas, mocinha?

Novamente fiquei cabisbaixo, mudo, sem saber o que fazer.

– ESTAMOS ENTENDIDAS??? – minha mãe me perguntou de forma mais energética agora.

– Sim, mamãezinha.

– Ótimo!… Querido! Venha ver sua filhinha!

– Estou indo!!! – gritou meu pai lá do quarto dele.

E de repente meu coração pareceu estar sendo esmagado por algo e um grande
iceberg se formou em meu estômago. Minha garganta se apertou e de novo minhas
lágrimas ameaçaram rolar.

– Mas ela é linda! – exclamou ele ao me ver.

– Sim, querido. Está como a gente tinha imaginado desde o início, não é? –
perguntou orgulhosa minha mãe.

– Sim, sim! Está linda, está marvilhosa! – exclamava meu pai emocionado. –
Venha, filhinha. Venha dar um abraço bem apertado em seu querido papai!

Acanhado, olhei para minha irmã e para minha mãe, que me encorajavam com seus
imensos sorrisos. Sem escolha, fiz o que meu pai me pediu e me pus entre seus
braços. Logo tive a sensação que agora era meu corpo que estava sendo esmagado.
Seus braços pareciam que iam quebrar minhas costelas.

– Pa… pai – falei quase sem fôlego.

Súbitamente, percebi desesperado que suas mãos me acariciavam a cintura, então
foram descendo vagarosamente minhas costas. e foram descendo, descendo…

– Papai! – soltei num fôlego só!

– Hi-hi-hi-hi! – minha irmã e minha mãe riam.

Meu pai me soltou e ficou me segurando pelos ombros, me contemplando por uns
instantes.

– Vamos, filhinha. Vamos pro shopping comprar roupinhas novas pra você ficar
sempre lindinha.

De novo aquela sensação de algo me apertando por dentro. De que não tenho mais
controle de nada.

Lágrimas querendo se irromper.

Meu pai sacou do bolso as chaves do carro e sem querer deixou cair no chão.
entorpecido pelo medo, pareceu que várias minutos já tinham se passado até eu
perceber que os olhares de todos recaíam sobre mim. Como a menininha obediente e
prestativa de seus pais, eu deveria fazer a gentileza de pegar as chaves no
chão. Resignado, fui me abaixando.

– Na-ah-ah-ah! – me interrompeu mais uma vez minha mãe. – Como foi que tua irmã
te ensinou, minha jovem?

Respirei fundo. E agora fiz “do jeito certo”. Inclinei-me para pegar as chaves,
sem dobrar os joelhos. O problema é que assim eu empinava a bunda e, como o
vestido que eu usava era bem curtinho, tive a horrível sensação de estar expondo
ela para todos. Só que minha bunda estava vestida com uma calcinha branca
estampada com coraçõezinhos rosas, o que me fez sentir pior ainda.

– Ai, não é uma graça?!? – aplaudia minha mãe – Você é uma ótima professora,
filha. – disse à minha irmã.

– Obrigada, mãe!

– Vamos! – me chamou meu pai.

Saindo do apartamento nos deparamos com dois caras, filhos dos vizinhos nossos,
e um pouco mais velhos que eu. Eles esperavam o elevador e me olharam de cima
abaixo. Sorriram. me senti mal, muito mal. Eles não estavam apenas me achando
ridículo, eles estavam me comendo com os olhos!

– Bom dia, rapazes. – cumprimentou meu pai – Conhecem minha filha caçula?

– Olá! Olá! – responderam eles entusiasmados.

– Seja uma garota educada e cumprimente os garotos, querida.

– Ô… oooi… – minha voz saiu feito uma lixa em minha garganta.

Os dois cairam na gargalhada.

– Se quiserem conhecê-la mais, apareçam hoje a noite. Vamos dar uma festa e ela
vai estar servindo todos os convidados.

– Servindo, é?

– Só!

Outra vez, um gelo se apoderou de mim e um buraco negro surgiu debaixo de meus
pés. Tudo parecia girar e girar. Então, de repente, vi uma luz, um raio de
esperança.

Minha mãe disse que me fez assim para eu ser mais responsável. Ora, é isso que
meus pais querem! Querem que eu seja mais responsável. Então eu serei! Serei
mais do que nunca eles poderiam imaginar. Farei tudo bem direitinho, tudo bem
certo. Assim provarei que mereço uma segunda chance e todo esse pesadelo pode
acabar!

É!

Tudo o que tenho de fazer é me empenhar bastante e agüentar firme!

Tenho de ser forte! Tenho de ser forte! Tenho de s…

Súbito, meus pensamentos foram interrompidos por um som que lembrava um chocalho
de metal se espatifando em algo duro. Um som familiar. Terrivelmente familiar.

Meu pai havia deixado cair as chaves do carro perto dos pés dos caras.

Não consegui mais.

Em poucos instantes, lágrimas se formaram em meus olhos e estragaram minha
maquiagem.

E instantes depois, minha mãe com seu chinelo fazia um novo estrago em minha
bunda.