Achei graça de falar que aconteceu uma coisa com minha mae:
Naaa, ela se foi!
Essa é a notícia

Serena e sem dor.

A gente não sabe o que vem depois, mas seja onde for certeza que será bem recebida.

Estava muito cansada.

Meu luto porém é antigo

Todo dia ela ia um pouco embora.

Um dia o aparelho de ouvido parou de fazer diferença e os óculos foram esquecidos num canto.

Vi quando as mãos ficaram trêmulas.

Era uma heroína do corte e costura pra mim.

Num instante um vestidinho pra filha de alguém.

Num instante uma casa cheia de tricôs por todos os lados.

E bordados, miçangas.. Mãos de fada.

Mãos de fada e dedo verde.

A samambaia que me deu nunca morre.

Eu ia chorando um pouquinho todo dia.

Pensava nas coisas que nos prometemos.

Voltaríamos uma vez mais a Portugal, conheceríamos Ouro Preto.

Ela amava Ouro Preto sem nunca ter estado lá.

Depois ela foi esquecendo as coisas, os lugares, os sonhos, as pessoas.

Esqueceu até de Ouro Preto.

As memórias foram ficando confusas

Dos filhos lembrou-se até o último minuto.

As vezes pensava que eu era sua mãe ou uma irmã.

Daí eu dizia: eu sou a Beth, sua filha.

Ela me olhava por alguns segundos e daí abria um sorriso, feliz por se lembrar.

– Eu sei, a minha caçula!

Aff, que gostosa essa lembrança!

Já bem velhinha, fraquinha, ela fazia força para sair da cama dizendo que precisava levantar para fazer comida pros meninos.

As vezes passava o dia falando, ria.

Há poucos dias na UTI, ela me disse que havia conversado por horas com seu irmão, o Nelinho. “Ah sim?

“Que bacana! O que conversaram?” Ela apontou discretamente para uma enfermeira e me falou baixinho:

“Muitas coisas mas não posso contar aqui”

Nunca soube o que era. E com certeza, nem ela.

As vezes parece só fantasia mas as vezes parece que realmente está conversando com alguém.

Na dúvida pedi pra levar muitos carinhos para os tios e tias quando os encontrasse.

Foi assim que a vi morrer um pouquinho todo dia.

Magrinha, magrinha…

Sumindo.

Nos últimos dias passei a lhe dizer que podia seguir em paz, descansar.

Que ficaríamos todos bem.

Que os filhos ficariam bem.

E ela então partiu no meio do sono.

Serena.

Não sei ainda como estou me sentindo.

Por agora estou tranquila.

Pensando que é assim mesmo.

As mães morrem mesmo um dia, né?

E ela viveu 99 anos!

Foi um baita privilégio ter mãe viva até hoje.

Não dava pra pedir mais nada pro Universo.

Só agradecer mesmo.