“Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória
E paira para além da história”

Um querido comentou sobre a possibilidade de eu estar com algum encosto.
Encosto eu entendo alguém do plano espiritual estar te atrapalhando e te levando à depressão.

Muitos anos atrás eu entrei num ciclo de lágrimas.
Chorava dia e noite sem nenhum motivo.
Ou sei lá, às vezes olhando tantos anos depois qualquer motivo parece pequeno pra chorar.
Tantas coisas aconteceram , boas e ruins, e afinal estou aqui ainda.
Ainda choro mas hoje tenho limite porque chorar demais é que nem rir demais.
Qualquer coisa demais é esquisito.

Enfim, mas voltando lá para a tal choradeira.
Era muito choro. Dia e noite.
Nessa época eu estava participando de um centro de mesa branca.
Aliás, estive em muitos templos, terreiros, capítulos.

Mas então nesse dia eu fui à sessão e estava daquele jeito.
Logo que iniciaram os trabalhos, uma mulher surgiu falando, ela gritava desesperada pelos filhos.
A medium começou a conversar com ela e soubemos que estava afogada.
Então rezaram, e ela foi se acalmando.

Eu nunca soube se aquilo aconteceu porque eu estava lá.
Mas eu fiquei tão assustada pela dor da mãe que procurava os filhos.
Uma dor que eu acho que jamais superaria.

Meu filho quentinho no berço.
Creio que retornei ao ponto em que tudo estava bem e voltei a caminhar.

Uma ateia que viu milagres.

Soube recentemente que minha avó, há mais de 100 anos, era ateia e expulsava os padres do seu quintal.
Minha mãe era religiosa mas acreditava que só existia um Deus.
E ele era imenso , cabia em todos templos, terreiros, capítulos.


Foi com ela que visitei o primeiro terreiro.
Ela que me obrigou às aulas de catecismo e me vestiu para a primeira comunhão.
Eu passava o dia na igrejinha do bairro, às vezes ao culto da congregação cristã, vez outra um terreiro pra abrir os caminhos.

Aprendi a gostar de lugares santos.
Se santos eles foram.

As religiões nos ensinam a olhar para o Alto.
E esperar do Alto.

E eu olho.
Me encho da paz azul celeste.
Inspira.
Respira.

Uma paz frágil, efêmera.

Porque lá dentro da gente às vezes são portas fechadas, cheias de pó e teia de aranha ou becos sombrios cheios de medo.
Traumas que não foram resolvidos.
Lutos mau vividos.
Tudo isso precisa vir à tona
É como arrumar gaveta, colocar tudo em seu lugar.
Resolver sobre o espaço que cada coisa pode ou deve ocupar.

Não aprendemos a olhar pra dentro.
E eu não consigo sozinha.

(Nossa que foda eu lembrar da história da mãe desesperada junto agora que de fato centenas de mães procurando seus filhos nas enchentes do Sul.

Mande doações através do site www.paraquemdoar.com.br
Acho que é bastante seguro e as doações vão para os lugares certos.)