Minha mãe é uma criança agora.
Cheguei a conclusão que ela é a nossa experiência de ter filhos.
Eu e roger estamos juntos há mais de 20 anos.
Muitos anos atrás um médico disse que se eu quisesse poderia engravidar.
Perguntei pro roger o que ele achava e nenhum de nós ficou empolgado com a ideia.

Eu queria ter tido muitos filhos.
Meu sonho que agora deve ficar pra outra vida, era ser uma parideira.
Queria ter pelo menos meia dúzia.
Porque a minha experiência de maternidade foi muito boa.
Eu nasci pra isso.
Eu gosto de ser mãe.

Mas a verdade é que foi uma luta grande minha e do meu filho por nossa sobrevivência.
Impossível ter mais filhos do ponto de vista de grana, de eu estar sozinha na maior parte do tempo…
Seria muito irresponsável.

E eu queria lá nos anos 80, né?
Um por ano!
Passou a época.

E por estes dias cheguei a conclusão que estamos tendo essa experiência de cuidar de outra ser humano juntos.
Experiência que talvez nos faltasse como casal.
Nossa, é muito exercício de paciência.
E temos que ser muito parceiros.
Porque revezamos.

E tá uma criança mesmo.
Primeira infância.
Nos solicitando muito.
Medo de escuro, fome, fralda suja, sede.
O tempo todo a gente tem que pensar por ela.
Somos os adultos.
Os cuidadores.

As memórias dela estão todas confusas.
Ela viaja no tempo.
Às vezes é criancinha mesmo, me chama de mãe.
Daqui a pouco fala comigo adolescente e tá desconfiada que eu tô cabulando aula.

Ela pergunta por que eu não fui pra escola e eu digo que hoje não teve aula.
Ela pergunta várias vezes e quando parece que esqueceu…
– Que horas começa a sua escola?
E fala aborrecida: você está mentindo!

Eu volto junto no tempo. Lá meus 15 anos.
Que eu era danada mesmo e cabulava mesmo.
E ela pegava muito no pé negócio de estudar.
Sou muito grata por isso.

Daqui a pouco ela dá bronca nos netos:
_ Desça daí !!
– Você vai cair!!

Também diálogos muito familiares da infância deles.
Porque aprontavam mesmo.

Dai quer levantar pra dar almoço pra eles.
E eu digo que já dei, que não precisa se preocupar.

De outra vez chama um dos irmãos pra ir na casa de não sei quem…
Uma parentada que eu nem sabia que existia.
Diz que vão comer pêssegos.
Que é época de pêssegos.
Que as árvores estão carregadas.

E me pede um cesto.
E me chama pra comer com ela.

De uma lado é encantador presenciar tudo isso.
Mas por outro, meu deus, é muito cansativo.

Há dias em que não conseguimos fazer nada.
Começa uma coisa, ela chama, a gente conversa, acalma.
Começa outra coisa, ela chama outra vez.

Eu escolhi cuidar dela.
Nós escolhemos.
Claro que o roger tinha que concordar.

Por gratidão.
Não essa gratidão que hoje virou obrigada-de nada.
Mas gratidão verdadeira.
Mais do que amor eu acho.
Eu tenho muita admiração mesmo pelo que ela foi.
A mãe que ela foi.
A mulher que ela foi.
Foi sempre muito valente.

Anos atrás eu estava atravessando uma fase muito difícil e eu chorava muito.
Nossa eu chorava tanto.
E ela me falou tantas coisas naquele dia.
Falou das lutas dela.
E de como tudo passou.
Falou que eu tinha que ter coragem, que eu tinha que lutar.

Ela é de luta.
Tanto que tem lutado pela vida agora.

Mesmo quando pede pra morrer eu sei que está lutando pela vida.
Que quer poder controlar a morte.

Ela acha que não pode me deixar.
Que os filhos precisam dela.
Eu digo que estão todos bem.

Daí me chama de madrugada e diz:
– Por que você não tá dormindo?
Você precisa dormir.

Tento explicar que tava dormindo e que ela me chamou.
_ Por que você me chamou?
Ela olha pro vazio…
Depois olha pra mim triste e confusa:
_ Esqueci…

Acho que é isso.
A gente vai ficando criança.
Eu me sinto então já adolescendo…