Roger definiu bem a discussão sobre liturgia: é cíclica.
Ela se repete em intervalos mais ou menos regulares.
Então para efeito de quem acompanha o blog eu vou dizer o que penso sobre isso.
Quem me segue sabe que não sou dada a nomear as coisas.
Detesto bla bla bla de teorias e definições sobre quem sou e o que busco.
No dicionário Liturgia é celebração e é assim que eu entendo.
Então o que chamamos de litúrgico em BDSM?
Impossível falar em liturgia sem lembrar da Helga.
Ela e o zepierre eram estudiosos de rituais, viajavam bastante, participaram de eventos em vários países. A Helga criava as cerimônias lindas cheias de símbolos.
(Antes que explodam a caixa de mensagens perguntando da Helga: Há anos não tenho notícias. Mas um dia ela passa por aqui)
Participei de um julgamento de escravos.
Um julgamento com toda pompa e circunstância.
Papeis determinados.
As regras de comportamento.
Então escravo no papel de escravo.
Rainhas no papel de Rainhas.
Foi uma delícia.
Rimos muito inventando formas de penalizar os escravos.
Uma época tão boa!!
A época de ouro do FemDom no Brasil.
Mas eventos como esse eu gosto mas não são essenciais para minha libido.
Essas cerimônias me emocionam mas não me excitam.
E o meu vínculo com BDSM é absolutamente sexual.
Eu poderia criar um ritual onde roger por exemplo se ajoelhasse todos os dias pela manhã e dissesse quanto me adora e quanto eu sou maravilhosa. Seria um ritual bem estimulante, poderia até dar contexto para uma sova.
Mas primeiro eu precisaria ser uma pessoa mais organizada. E eu e roger somos um pouco caóticos. E estamos tranquilos sobre isso.
E depois eu ia achar cansativo. Ia esquecer de cobrar.
E esse tipo de ritual não me excita.
Então, pra quê?
Por outro lado, sem eu exigir, roger já faz isso todo dia.
Todo dia diz que eu sou linda mas eu sei que tô velhinha.
E todo dia ele diz quanto me admira.
Houve disciplina, houve enredo.
E agora ele está adestrado.
Então não sou menos dominadora porque não exijo certos comportamentos.
Roger não me chama de “senhora” o tempo todo mas quando chama, sei que está tentando um gatilho.
“Senhora” carrega um símbolo de hierarquia e respeito que é sempre estimulante.
Mexe comigo porque estabelece imediatamente hierarquia.
E hierarquia é imprescindível em um relacionamento BDSM.
Tem que haver o top e o botton, a Rainha e o escravo, a Dominadora e o submisso.
Como na vida, né? Docentes e discentes, mestres e neófitos, cabo e general, pais e filhos.
Convencionou-se que certos tratamentos pessoais implicam hierarquia e isso não tem nada a ver com liturgia.
Quando há mais de 20 anos eu comecei a conhecer BDSM, havia um sem número de regras para as Dominadoras. Quer dizer, havia regras para todo mundo.
“Dominadora não pode transar com o escravo, por exemplo.”
Essa era bem popular.
E eu por acaso não gosto de ser penetrada e há realmente no meio BDSM muitas dominadoras que não gostam também.
Mas não é porque é uma regra. Na verdade, a questão é que no meio baunilha vc não pode dizer um negócio desses. Os caras piram no mundo baunilha. Como assim não quer trepar??
E no BDSM vc pode.
Então essa regra serve pra mim, na minha relação com meus submissos, mas não serve para todas as Dominadoras.
Até por uma questão muito simples: nós estamos aqui para nos divertir, para ter e dar prazer.
Quem gosta permite, quem não gosta não permite.
Mas BDSM é sexo.
É gozar (ou não poder gozar)
É ter prazer.
Havia tantos preconceitos sobre tudo.
A fragilidade exposta no meu codinome era uma tentativa de me defender das regras que eram rígidas para dominadoras.
Era como se todos nós estivéssemos o tempo todo em liturgia, em celebração.
E um único grupo houvesse estabelecido as regras para todos.
Como a domme deve se comportar
Como o escravo deve se comportar
Cor de coleira, tempo de negociação.
Pra tudo criavam regras.
E se vc não se comportava daquele jeito, você não era uma Dominadora respeitável nem submissa de alma.
Uma vez transei com um dominador.
Uma bosta de trepada aliás.
Foi uma situação até bacana. A gente foi pra um motel lindão.
Ele estava com a escrava dele que muito minha amiga.
E eu… Ah, to fazendo nada mesmo.
Depois foi legal ter mandado o roger agradecer a ele por me dar prazer.
Nem deu, mas vá lá, adoro humilhar o roger assim.
E descobriram isso e publicaram como uma denúncia.
Imagine isso?!!
Uma pessoa ligou pra Helga pra dizer que eu tinha transado com um dominador.
A Helga nem deu bola.
E convenhamos, na época era o único julgamento que realmente me interessava.
Não porque ela fosse me julgar mal, porque é uma mulher sábia e nunca se pos a julgar ninguém.
Só vivia no estilo dela.
Ùnico, aliás.
Mas eu só fiquei chateada por não ter comentado isso com ela antes.
É que foi mesmo tão insignificante pra mim que não valeria nem uma pequena nota.
No mais, não me senti nem um pouco constrangida.
Ah vá. Eu sou Rainha meus amores.
Eu transo com quem eu quiser.
Mas nossa, meu nome andou na lama por conta disso.
Eu quase perdi a carteirinha de domme.
Hoje estou mesmo melancólica, com saudades de bons debates e lembrei de um caso há muitos anos.
Uma dominadora ia escrever pra mim, em particular, sobre se era errado ela permitir penetração anal.Ela disse que gostava mas o que o submisso ia pensar…
Só que na hora de postar ela se equivocou e enviou para a nossa lista de discussão, àquela altura com cerca de 2000 participantes.
Ela ficou desesperada, envergonhada, quebrada.
De novo, medo de perder a carteirinha!
Então foi muito legal que um dos membros do grupo, o Dumuz, escreveu um conto apaixonante em que a dominadora, de quatro, obrigava o escravo a montar nela como um cachorro. Ele fica tão impactado que não consegue ter ereção ou não lembro , acho que ejaculou rápido. Enfim, ele a frustrou e a partir daí sofreu muitas humilhações. Porque nem como cão ele servia!!!
Ela seria menos domme por conta de estar de quatro??
Bla bla bla simbolos de hierarquia.
Ora, se poupe!!
Liturgia é celebração.
Há grupos, casais e individuos que vivem essa celebração.
Para quem essa celebração é vital para o prazer.
Um fetiche.
Então esses grupos e casais criam seus próprios rituais.
Você pode ou não fazer parte desses grupos.
Um casal pode ou não seguir rituais de determinado grupo ou criar os seus
O nosso aqui, o BDSM Nordeste não é liturgico.
Significa que não se exige um comportamento especial dos submissos e submissas, ou de dominadores e dominadoras.
Não estamos em cena no grupo.
Estamos todos conversando e aprendendo uns com os outros.
Eu já criei alguns grupos liturgicos. Eu Rainha o tempo todos e todos os meus submissos muito obedientes me adorando dia após dia.
Mas não tenho mesmo muita paciência e como Rainha era eu que precisava estar ali alimentando os devaneios da galera.
É gostoso estar em grupos litúrgicos tanto quanto é gostoso estar em grupos não-liturgicos.
Enfim.
Se você estiver em um grupo liturgico ou um encontro litúrgico você deve ler as regras com atenção.
É muito importante que você siga as regras pra não quebrar o clima em que todos estarão envolvidos.
Então o submisso vai chamar todo mundo de senhora ou de mistress ou de samambaia. Quem vai definir isso é o anfitrião.
Se for um grupo não litúrgico que tem apenas regras básicas para uma convivência saudável. O submisso não precisa chamar as dominadoras de senhora ou os dominadores de senhor.
É troca de ideias, debates, uns aprendendo com os outros.
Simples assim.
Você define o que é confortável e prazeroso pra vc.
Eu sempre fui um lobo bem solitário. Nunca entendi essas discussões de grupos. Lembro que existia o Blog do Carcereiro onde o pessoal registrava os “contratos” de servidão. Eram pequenas obras literárias. Um dia alguém veio dizer que os tais contratos não tinham valor legal. Fiquei muito admirado que alguém algum dia pensasse que tinham. Mas é sempre assim, vigiar e punir. Foucault explica.
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rs… pior que sim. tem uma galera que acha que tudo é de verdade!!
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Muito bom poder degustar da leitura do texto .
Seria bom se certos adeptos que tentam dar carteirada de BDSM de verdade baseado em liturgias particulares que criticam como menos adeptos os que não obedecem ou seguem seus ritos e cerimônias pudessem ler essa ótima abordagem .
Grato a Beth Andrade e ao Roger por compartilhar esse belíssimo texto .
Um forte abraço do Thiago “Sade” adepto da Cena de Goiânia/Goiás .
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Rs… Eles não entendem nada do que eu digo porque partem de uma outra premissa.
E eu não entendo porque não assumem seus grupos como litúrgico e curtem as regras para o grupo.
Por que eles acham de impor regras pra todo mundo??
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Devem ter falta de submissos para mandar ou escravos , aí nisso tentam mandar na geral .
Ou vontade de tentarem ter a patente registrada do BDSM no Brasil e tentarem incutir a verdade de seus Dinos nos outros.
A respeito desse termo Dino acredito que foi um erro de digitação , eles queriam e gerar adeptos da invenção de seus D onos (devem ter trocado o “i” pelo “o” quando iam se referir a algum idolatrado que tentam parecer vinculados por idolatria religiosa com devoção rsrsrs aí liturgia vai bem pra esses devotos rsrsrsr)
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Hoje quando li seu texto pensei em vc, e abri seu blog.
Anda muito ativa escrevendo, muito mais do que eu.
Não escrevo mais sobre tudo o que faço.
De vez em quando é que dá um formigamento, ou quando tenho fotos legais, por que ultimamente nem fotos tenho tirado.
Mas antigamente tinha mesmo regras demais, e dinossauros como nós vivemos épocas estranhas, Mas agora está tudo meio banal, estou me atualizando, vivendo o hoje, mas ainda tenho saudades dos tempos de outrora.
bjs,
Pandora.
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Sra, talvez fosse interessante puxar pela memoria e relatar como foi a sua experiencia com os julgamentos coma Sra Helga. Digo, porque desde que ela não está mais na net, tudo que se puder reunir dele e de pessoas que conviveram me parece interessante
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