Errata sobre autoria do texto. Não é de RainhaTal mas de Dom Leopardo e pode ser lido também seu seu blog  Leopardo Dom.

diva2Fotografia: Ethi Arcanjo
os pés no divã.

BDSM no Divã – As Mudanças vêm pelo Novo!

Ultimamente tenho observado uma leva de neófitos adentrarem ao universo do BDSM, que nada sabe sobre o mesmo, nos dizendo que estamos com posicionamentos errados, como devemos agir na D/s, até mesmo como devemos falar.

São iniciantes que nunca leram nada, ou quase nada, com uma visão romantizada do que seja o BDSM. Incitados por essas literaturas que estão sendo produzidas com o intuito de acúmulo de lucros e que passam uma perspectiva um tanto quanto distorcida da realidade do BDSM real. São pessoas que se recusam a buscar informações mais próximas do que seja essa realidade paralela e se aprofundar na literatura mais, digamos, específica sobre o BDSM. Iniciantes que têm direitos de emitir opiniões sem nada saberem, sobre algo que nunca praticaram e que se precipitam, muitas vezes, buscando de forma imediatista, suas identidades num meio muitas vezes hostil e cheio de armadilhas para tais pessoas”ingênuas”. Nos grupos de discussão e debates, são os mais dispostos a opinar e criticar. Mas, se acham sempre certos como se o erro não coubesse a todos os seres humanos.

Alguns desse iniciantes são pessoas que acordam zangadas com suas vidas, com a cabeça “virada para a lua”, desiludidas e, de repente, se dizem que sempre foram dominadores natos ou submissas de alma – será mesmo?-, portanto, não precisam perder tempo estudando,adquirindo conhecimento pelo menos teórico, pois o tempo que possuem é destinado para colecionar Tops e bottons.

Diante desse fatídico retrato, como podemos respeitar quem não estuda? pelo menos num primeiro momento, buscar desvendar o que seja esse universo pelo menos sua história? como surgiu o termo BDSM? quem compilou essas práticas, fetiches, protocolos dentro dessa sigla?, Cabe mesmo tudo debaixo desse guarda chuva?. Não é um caminho fácil, nem tampouco se desvenda seus mistérios do dia pra noite. Isso porque o BDSM é feito de relações humanas, conflituosas e que muitas vezes confrontam nossos valores, nossas crenças, nossa vidinha tão boa e aparentemente bem arrumada. Os neófitos curiosos – muitos o são, não buscam comprometimento – não percebem muitas vezes portarem-se com responsabilidade, buscando o conhecimento, para discutir com aqueles que já desbravaram de certo modo esse caminho, tornando-o mais acessível a eles mesmos, que se dedica aos estudos, para realmente praticar o BDSM de forma séria. Como podemos aceitar que aventureiros descomprometidos nos imponham suas distorções e frustrações?

Vemos aventureiros se auto denominando dom, Mestre, Lord, top que na prática são usurpadores da história construída por aqueles que se mostraram dispostos a sofrerem, muitas vezes, todo tipo de exclusão social, serem taxados de doidos, maníacos, estranhos até para seus próprios próximos para viverem o BDSM de forma plena e tornarem-se pessoas melhores. São esses que chegam já com toda uma trajetória traçado por veteranos e que se acham muitos deles no direito de abusar da nossa nossa tolerância e afabilidade. Convidados por nós para fazerem partes desse grupo pequeno de adeptos – pois não se enganem, verdadeiros BDSMers são poucos -, nos desautorizam a enquadrá-los à pelo menos os protocolos básicos, regras e conduta, princípios do BDSM. E são esses que mais se queixam das D/s por sua estruturação litúrgica.

Cada dia mais surgem subs fantasiosas querendo pica de machos bonitos e gozos infinitos, adentram aos grupos para falarem bobagem e ganham notoriedade e diploma, são indicadas aos Oscar da D/s. Muitas transformam suas páginas sociais em feiras para venderem e comprarem fetiches e passarem uma imagem forjada de si mesmas. Dominadores também não ficam atrás no reverso dessa medalha.

Por preguiça e/ou conveniência não querem a liturgia, não querem preceitos, não querem galgar os primeiros passos com humildade e valorização de si mesmos/as como pessoas acima de tudo. Querem apenas as sessões floridas e perfumadas, o mundo do faz-de-conta com o qual estão acostumadas nas obras fantasiosas que leem na ficção. Não resta dúvida, essas pessoas criticam abertamente quem gosta da liturgia. Não que isso não possa ser feito, mas que não seja feito de qualquer jeito nem baseado em “achismos”.

Em contrapartida subs adolescentes – o que já é um contrassenso visto que adolescentes não podem, por lei, serem expostos a esse universo ao qual ainda não estão preparados para adentrar. Ora se não é todo adulto que tem maturidade para perambular por esse lado obscuro da nossa índole, imagina um ser que ainda está em formação -, reprimidas e/ou zangadas com suas estruturas familiares, vêm para o BDSM como meio de punição contra as atitudes de suas famílias, ou como meio de se dizer que é rebelde, transgressor/a etc.e muitas já vêm frustradas sexualmente e nesse meio, se não tiver cuidado, as frustrações tendem a aumentar e não diminuir como pensam.

Muitos Dominantes levam as/as subs para sessões para retirar do stress de suas muitas magoas e decepções.Fracassados e brochantes na cama, encontram no BDSM o espaço ideal para fazerem covardias e pérfidas vinganças. Para estes é prazeroso e excitante não respeitar a negociação, fazer as submissas de idiota, ridicularizá-las debochando de suas entregas. Cegos e surdos pela exaltação dos seus resplandentes egos, não respeitam a emissão da safe o que pode causar danos físicos e psicológicos a qualquer pessoa.

Contudo, esses tipos nocivos ao meio em vez de serem enquadrados nos enquadram; em vez de serem limitados, nos limitam; em vez de serem ensinados, nos impõem sua ignorância e ainda são festejados, aplaudidos por seu séquito de seguidores igualmente semideuses, detentores do conhecimento bdsmista advindo de suas apostilas prontas.

Nunca sequer levaram uma chicotada, nem experienciaram a dor ou o sadismo na suas formas práticas para realmente terem um norte para se autoconhecerem intimamente. Alguém já lhes disse porventura que o BDSM também comprometerá certos aspectos de sua vida particular, pública ou pessoal? o que é que papai e mamãe ou aquela vizinha tão conservadora vai dizer quando souber, de algum modo, mesmo que se evite ao máximo, dos seus desejos pervertidos?
Geralmente, os grupos não impõe regras como mecanismo de respeito ao BDSM…tudo é livre? Geralmente tudo. Respeito é algo relativamente relativo, pois, depende do grau de conhecidos ou com quem se mantém relações de interesses.

Nesse sentido, essa nova geração aqui no Brasil fará desaparecer o BDSM como o conhecemos. Tornará o BDSM apenas como prática ou técnica de consultórios de sexólogos e psicólogos orientando mulheres e homens baunilhas a resolverem ou salvarem suas relações por meio de um momento de sexo picante com as práticas de BDSM. Sairão dos consultórios com receitas prescritas com a dose de spank, humilhação, uso de brinquedinhos, etc. à serem aplicadas a tantas vezes por dia, durante X número de meses.

Se você, se nós não nos sentimos responsáveis pela preservação do que é a identidade de um praticante legítimo de BDSM, não temos autoridade de criticar quem não respeita o BDSM. E como o tempo não para, e nós envelhecemos, não deixaremos herdeiros do nosso legado no BDSM. Lembrem-se nada se consolida sem luta, para preservar uma conquista é preciso ensinar a geração do porvir a construir e preservar aquilo que já está posto e não tentar reconstruir algo já pronto, mas construir levando em conta as rupturas e continuidades dentro do próprio paradigma do BDSM.

Tenha certeza, o tempo dirá e chegará o dia em que vão nos “enterrar vivos” porque já nos consideram ultrapassados. Tentarão de toda sorte nos ridicularizar nas redes sociais e não nos aceitarão em seus encontros, porque a arrogância e a soberba, muitas vezes, lhes sobem aos corações para que não vejam que precisam ter humildade de reconhecer que ninguém nasce sabendo, mas que estamos sempre busca de melhorarmos e evoluirmos. Independente da idade que tenhamos.

Por tudo exposto, creio que há muito por ser feito. Pois, não podemos negar que há entre os praticantes clássicos do BDSM, os que se consideram donos exclusivo da verdade, retendo e dificultando o acesso ao conhecimento, desinformado. Comportamento imaturo que tem, muitas vezes, atrapalhado o diálogo entre à voz da experientes e os iniciantes. Posto que, sabemos que têm muitos novatos verdadeiramente interessados em serem guiados e orientados precisamos rediscutir mecanismos eficientes e eficazes de comunicação e aprendizado…

Mas, infelizmente, impera a desconfiança e a arrogância entre nós. Quem ganhará essa batalha? Enquanto isso, o BDSM agoniza no divã.”

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