A Revista Nova publicou um artigo intitulado “A fantasia de ser dominada”, onde expõe algumas teorias que procuram explicar por que muitas mulheres possuem esse desejo e mostra dicas de como realizá-lo com o mínimo de riscos. Para acessar o artigo, clique aqui: http://ow.ly/rC1R

Eu, já “versado” no BDSM (sigla que designa as seguintes práticas: Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo) achei a matéria apenas razoável. Entretanto, como ela não é dirigida para os pervertidos sado-fetichistas como eu, e sim para um público leigo no assunto, mas de mente aberta e que topa novas experiências para incrementar a relação, creio que o artigo está de bom tamanho e que serve aos seus propósitos.

Abaixo comentários meus acerca de alguns trechos do artigo (em itálico entre aspas):

“Outro fator excitante: quando a amarram e a obrigam a transar, você não tem o menor controle. A situação é imprevisível, não dá para saber o que virá em seguida… Quem não sente um frio na barriga com o inesperado, o imponderável?”

A melhor comparação que conheço sobre uma sessão BDSM (o intercurso sadomasoquista) é a de andar de olhos vendados numa montanha russa desconhecida. Você mal faz idéia do rumo que tomará, a duração e a intensidade da experiência. Perder o controle, não saber o que virá em seguida, estar vulnerável e subjugado aos caprichos de outra pessoa é mesmo emocionante. Misture isso ao prazer sexual e então…

Muitos pensam que o grande prazer do masoquista é a dor. Isso é até verdade em alguns casos. Eu também curto apanhar, mas a “graça” para mim não é SÓ isso. Para mim, o grande barato é a sujeição. Eu e meu corpo estão disponíveis para o que minha Dona, a Rainha Frágil, bem entender naquela hora. Não faço idéia do que ela fará afim de obter seu prazer, se usará alguns de seus equipamentos de tortura ou simplesmente manipulará meu tesão, mas ela vai obter de qualquer forma.

A dor não é o fim, é apenas o meio. E sabe lá Deus (e minha Rainha) o que acontecerá até o final.

Obviamente que o prazer e a segurança serão maiores se você for dominado(a) por alguém que conheça e confie. Melhor ainda se ele(a) souber o que é que te excita e o que te broxa legal.

Como você será um mero brinquedinho, é bom que saibam que botões apertar.

“Vale lembrar ainda que esse tipo de brincadeira erótica está ligado à submissão. Portanto, desejar colocá-lo em prática pode ser uma maneira de escapar ou se desconectar da sua identidade real e do stress do cotidiano. Um jeito de abandonar as responsabilidades e se entregar total e absolutamente às vontades do outro, sem precisar pensar, refletir ou tomar decisões. Nada mais relaxante e redentor para mulheres que andam sobrecarregadas de obrigações e tarefas…”

Fantasia clássica de um escravo (o “passivo” numa relação BDSM. Nesse texto, “escravo” designará tanto o escravo, como a escrava): ser mantido preso (na masmorra, numa prisão, no quarto de empregada) contra sua vontade e sair de lá somente para apanhar e dar prazer ao seu Dominador (o “ativo” numa relação BDSM. Nesse texto, “dominador” designará tanto o dominador, como a dominadora) – coisas que “coincidentemente” também dão prazer ao escravo. Enquanto está preso, seu Dono lhe dá de comer e cuida de sua integridade física.

Ou seja, o Dominador se responsabiliza pelo seu escravo e este ainda “sofre” coisas que lhe excitam.

Bom demais, não?

Pior que isso tem respaldo na vida real: Soube de um escravo que, após perder o emprego, ligou para uma dominadora com quem teve algumas sessões e avisou que iria morar com ela e serví-la enquanto não arranjava emprego.

Obviamente, o aviso foi rechaçado.

É claro que que um bom escravo não é totalmente passivão. Ele sempre buscará novas e diferentes formas de agradar e surpreender seu dominador.

“A quarta hipótese para explicar o desejo de ser possuída à revelia é que, lá no fundo, algumas de nós considerem o sexo algo sujo ou errado e, inconscientemente, sintam-se culpadas por ter prazer. Então, ao imaginar que estão sendo forçadas a fazer aquilo, se liberam, aproveitando muito mais o rala-e-rola. ‘Às vezes, representar uma personagem permite deixar de lado ressentimentos, dificuldades no relacionamento, autocensura. Facilita viver as sensações’, fala Marina.”

Fugindo um pouco do assunto, essa teoria me lembrou uma prática comum no BDSM: a “Feminização Forçada”, onde a Dominadora “obriga” (Entre aspas. Mais à frente, mostro que não há nada forçado ou obrigado numa sessão BDSM saudável) o escravo a vestir trajes femininos, a se maquiar e até a andar e se comportar como uma mulher ou menina.

A teoria: o sujeito gosta de se vestir e agir feito uma mulher, mas não admite. Daí, para curtir esse prazer, ele é “forçado” por sua Dominadora a se feminizar.

Quem me conhece e já deu uma lida nesse blog, já percebeu que curto muito ser feminizado, mas comigo não tem esse negócio de “forçado”. Eu me feminizo com maior prazer, adoro quando minha Dona e suas amigas me feminizam, e sempre que surge a oportunidade me exponho feminizado em público. Não tenho a menor vergonha de admitir isso. Trajes e maquiagens femininas me deixam ligadão.

“Essa transa com pegada forte pode envolver gritos e tapas de mentirinha ou ser mais romântica, quando seu amor amarra você com lenços de seda e atiça seus sentidos aos poucos, construindo lentamente um orgasmo de ver estrelas. ‘Qualquer variação é normal, DESDE QUE FUNCIONE COMO UM ADITIVO, E NÃO COMO MOTOR DE ARRANQUE PARA QUE O SEXO ACONTEÇA’, pontua Marina.”

Observação tão importante que transcrevi em caixa alta. Se para transar você precisa apanhar ou ser humilhado(a), ou seja, se você se excita sexualmente SOMENTE através da dor física/psicológica, então você possui problemas, e eu sugiro que procure ajuda.

“Seu homem, que vai se sentir o machão-todo-poderoso, precisa ser habilidoso para a cena não se tornar cômica em vez de sexy. Se decidem usar algemas, por exemplo, certifiquem-se de que as chaves estão à mão.”

A grande maioria das algemas vendidas em sex shops possuem travas de segurança, que permitem abrí-las, mesmo sem a chave. Até algemado, é possível se libertar.

“Indispensável também descobrir seus limites.”

A observação mais importante do artigo. É bom saber até que ponto se é capaz de ir para não correr o perigo de decepcionar seu Dominador ou, pior, se ferir gravemente. Tiro por experiência própria: quando fui ter pela primeira vez uma sessão BDSM com uma Dominadora, a Rainha Frágil (sim, ela foi minha primeira Dominadora, e até hoje continuo sendo seu escravo), lhe jurei que eu agüentaria tudo, que ela podia mandar brasa! Aí, quando pela primeira vez apanhei com uma palmatória de couro, cheguei a uma importante conclusão:

AQUILO DÓI PRA CARAMBA!!!

Na terceira palmada, “pedi pra sair”.

(Só não foi mais constrangedor porque ela caiu na risada quando pedi para que parasse. Experiente, não se deixou enganar pelo meu papo amador de “eu-suporto-qualquer-coisa!”)

Costumo classificar os limites em três:

1. Expansíveis
Aqueles que, com um pouco de conversa e muita prática, podem ser superados. De novo, experiência pessoal: penetração. Apavorei-me quando minha Dona tentou me penetrar com o dedo. “Travei” legal. Ela então conversou bastante comigo e convenceu-me a experimentar. Bem aos poucos. Começou com os dedos em luva de látex embebidos em lubrificante, depois um pequeno plug, passei para um maior e agora curto vibradores e bolinhas tailandesas. Sugestão: para evitar sujeira e bactérias do ânus, é bom usar esses acessórios com camisinhas.

2. Intransponíveis, mas adaptáveis.
Aqueles que não se consegue superar, mas pelo menos dá para dar um jeitinho de seu Dominador curtir. A Rainha Frágil por exemplo ADORA quando seus escravos bebem sua urina (uma prática fetichista, urofagia, bem mais comum do que a gente imagina). Tem escravo que também adora beber urina, mas eu não, e dificilmente superarei esse limite, pois, sempre que tentava, começava a vomitar. Não tem jeito. PORÉÉÉÉM… ser “urinado” é outra coisa, consigo tolerar. Sim, sentir aquele líquido quente e de odor forte escorrendo pela nuca, descendo as costas e pingando pelo cóccix é mesmo nojento, Mas como não me provoca náuseas, nem coisa parecida, então me submeto a isso para a alegria de minha Dona (o sorrisão dela vale a pena).

3. Intransponíveis MESMO!
Aqueles que são insuperáveis MESMO! Não se consegue superá-lo, nem mesmo coragem de tentar ou ao menos contorná-lo. No meu caso, um desses limites seria a asfixia erótica. Tá certo que tenho até certo interesse, mas como, além do risco de morte, há o de seqüelas, acho que mesmo surgindo a oportunidade de experimentar, iria recusar.

“Pesquisas mostram que o medo pode ser um afrodisíaco poderoso — desde que o casal não exagere na dose, ou estragará tudo. ‘Qualquer jogo erótico precisa ser seguro e consensual e não deve provocar dor física ou emocional’, alerta a especialista. ‘Não é porque esse tipo de sexo contém elementos de conquista à força, recebendo o nome técnico de estupro fantasioso, que vamos confundir com atos de violência e agressão.'”

O BDSM saudável é apoiado por um importante tripé, O “SSC”: São, Seguro e Consensual.

Numa sessão BDSM, é imprescindível que esses elementos estejam presentes. Eles diferenciam uma sessão BDSM de um caso de abuso, violência doméstica ou psicopatia. Separam um praticante BDSM de um louco ou de um marido violento, por exemplo. Nunca se submeta a práticas de dominação contra a própria a vontade e se não se sentir seguro consigo ou com o Dominador. Evite práticas que envolvam riscos excessívos à sua integridade física e psicológica.

“Que tal combinar com seu homem um código íntimo e pessoal para sinalizar sim e não? (…) Uma vez que vai brincar com o perigo, só entre nessa ao lado de alguém em quem confie completamente. Estabelecendo regras, o resultado será prazer em último grau.”

No contexto BDSM, existe a “Palavra de Segurança” (“safeword”). O escravo quando não agüenta mais, diz a palavra, sinalizando ao Dominador que chegou ao limite. Alguns casais usam duas palavras de segurança: uma para interromper a sessão e outra para que o Dominador maneire um pouco no que está fazendo: por exemplo, diminuir o ritmo das palmadas, dos pingos das velas, etc. Há casos de três palavras: a terceira é para interromper uma tortura que o escravo não suporta mais, e o Dominador então deve começar outra.

Entre os praticantes exaltados, há uma certa polêmica em relação à Palavra de Segurança. Já que pode interromper a sessão quando bem entende, dizem que o verdadeiro poder está nas mãos do escravo e não na do Dominador.

Gente, a Palavra de Segurança apenas confere ao escravo o controle da situação, mas não o domínio. O escravo pode dizer quando a sessão deve acabar, mas não diz o que o Dominador tem de fazer e como fazer.

Além do mais, esse “Poder” é totalmente fictício, só “funciona” dentro de uma sessão BDSM, que, agora você já deve ter percebido, é uma espécie de teatro ou RPG sexual, onde cada parceiro escolhe um papel e o segue até o fim. Um escravo numa sessão BDSM não continua sendo um escravo na “vida social”. Um bom Dominador tem plena consciência disso. A Rainha Frágil jamais me ordenaria a andar de quatro encoleirado no meio de uma rua movimentada. Ela separa a “vida BDSM” da “vida pública”. Além disso, sabe muito bem que eu me recusaria a fazê-lo. E eu tenho toda a permissão de questionar alguma ordem ou vontade sua se eu não me sentir seguro com tal ordem ou vontade.

Afinal, ela não é uma rainha de verdade, nem eu sou um escravo de verdade. Somos apenas duas pessoas que curtem praticar uma divertida e excitante fantasia sexual.

Por isso, mesmo sendo seu escravo, tenho também todo o direito de ter opiniões diferentes das dela, veja só…

Por isso, cuidado com quem leva o BDSM a sério demais!

E… nossa!, quanta coisa para uma matéria que considerei apenas “razoável”, hein?

Muita coisa ficou de fora. O BDSM é um universo imenso, excitante e apaixonante. Felizmente taí a bendita Internet para quem quiser se aprofundar mais nele. Alguns sites que indico aos iniciantes:

Desejo Secretohttp://www.desejosecreto.com.br
GasMaskhttp://gasmask.wordpress.com
Out of the Shadows: About BDSMhttp://www.sexuality.org/authors/lauren/AboutBDSM.html

Pra finalizar, parabéns à Revista Nova. A matéria é bem suscinta, informativa e despida de preconceitos comuns em artigos similares que leio em outras revistas. E, se foi capaz de me provocar – eu, que sou do “meio” -, então espero que tenha estimulado as leitoras interessadas em experimentar.

Mas lembrando: sempre de forma sã, segura e consensual.

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